“Fora da família não há
solução”
Para
Ziraldo, autor do Menino Maluquinho, a adolescência
e a juventude são travessias que exigem
apoio e paciência dos pais
Marcelo
Barreto
A porta branca enfeitada por uma placa de madeira
colorida com os dizeres “Ziraldo –
Dibujante” se abre e revela lá dentro
um senhor de cabelos encaracolados e grisalhos
sentado numa cadeira cercada de estantes por todos
os lados. As prateleiras estão abarrotadas
de livros infantis, de arte e de ilustração,
revistas em quadrinhos, desenhos acabados e inacabados.
À frente do anfitrião, uma grande
prancheta, coberta de lápis e canetas que
fizeram muitos dos trabalhos também expostos
nas paredes. Atrás, um busto em tamanho
quase natural do Super Homem, de braços
cruzados e olhar de herói, como que zelando
pela paz do lugar. Não é difícil,
para quem entra, imaginar que está aí
um lugar onde o Menino Maluquinho, mesmo depois
de crescido, se sentiria à vontade.
Pois
quem ocupa esse endereço, na Zona Sul do
Rio de Janeiro, é justamente o criador
de um dos personagens mais famosos da literatura
infantil brasileira. Ziraldo Alves Pinto, mineiro
de Caratinga, tem 75 anos, e a palavra em espanhol
que o anuncia na entrada apenas começa
a descrevê-lo: ele é desenhista,
sim, mas também pintor, cartazista, jornalista,
teatrólogo, chargista, caricaturista e
escritor, como informa seu site na internet (www.ziraldo.com.br).
São
tantas as atividades de Ziraldo que a pergunta
“O que é que você tem feito?”,
lançada assim, como quem não quer
nada, só para começar o papo, é
respondida com um pedido a uma das secretárias
do estúdio: “Traz os livros aqui
que o Marcelo tá mal informado!”
O pronto atendimento produz uma respeitável
pilha sobre a mesa. No topo está “Menina
das Estrelas”, seu mais recente lançamento
para o público infantil. Mas o tema da
entrevista, o papel da família, remete
a um livro bem mais antigo, que já virou
história em quadrinhos, peça de
teatro, filme, site na Internet (www.meninomaluquinho.com.br)
e marca de muitos produtos. “O Menino Maluquinho”
nasceu em 1980 e, desde então, faz parte
da infância de milhões de leitores
no Brasil, na América Latina e até
na Coréia do Sul.
Como
se descobre no fim do livro, é o relato
da infância de um “cara legal, mesmo”,
que, afinal, havia sido apenas um menino feliz.
A história foi inspirada numa reunião
de pais e mestres da qual Ziraldo, pai de três
filhos, participava e na qual se discutia a “receita”
para criar bem os filhos. O enredo do livro é
coerente com sua convicção de que
um canalha é alguém que não
teve uma boa infância e o apoio da família.
A seguir, Ziraldo fala da passagem da infância
para a idade adulta e da importância da
família nesse processo. Temas, a exemplo
do Menino Maluquinho, universais.
ONDA JOVEM: “O Menino Maluquinho”
(1980) retrata o personagem principal na infância
e, nas páginas finais, salta diretamente
para a idade adulta, quando ele se torna “o
cara mais legal do mundo”. O que acontece
no intervalo que permite essa transformação?
Ziraldo:
Sou muito ligado à família. No mundo
de hoje, fora da família não há
solução. Na infância, o que
há de mais importante é o amparo
familiar, do pai e da mãe. O Menino Maluquinho
tem um histórico familiar importante. Ele
foi bem amado na infância, e é por
isso que nas páginas finais do livro se
descobre que ele foi, na verdade, um menino feliz.
Minha tese, a confirmar, é de que quem
foi querido e teve amparo na infância tem
uma possibilidade muito grande de ser um cara
melhor.
Esse amparo está ligado às
condições materiais? O Menino Maluquinho
tem uma qualidade essencial: pode se identificar
com qualquer criança. É impossível
perceber, por exemplo, a que classe social ele
pertence. A história vale para qualquer
situação social?
Uma
boa passagem da infância para a idade adulta
não é uma questão de recursos
materiais. O cara pode ser rico e se tornar um
sujeito péssimo. Veja o Collor (Fernando
Collor de Mello, ex-presidente do Brasil e hoje
senador por Alagoas). Esse cara teve todas as
vantagens na infância. Ter uma infância
boa não significa ser atendido em tudo.
A qualidade essencial é ser amado.
Outra coisa que não fica clara é
a idade do Menino Maluquinho. Ele foi criado para
representar toda a infância?
Faço
uma distinção entre criança
e menino ou menina. Para mim, até por volta
dos oito anos de idade somos crianças,
indistintamente. Até temos lembranças
dessa fase, mas é só entre os 8
e os 11 anos que inauguramos a memória
afetiva e começamos a categorizar as pessoas.
Essa é a fase em que somos menino ou menina.
Nosso cérebro se torna uma máquina
fotográfica com filme dentro. Eu, por exemplo,
sou capaz de desenhar cada casa da rua onde morei,
em Caratinga. Essa fase, que dura pouco, porque
logo depois já começa a pré-adolescência,
é a que retrato no Menino Maluquinho.
E como seria o adolescente Maluquinho?
A
adolescência não é uma fase
tão brilhante, tão maravilhosa quanto
essa de menino ou menina. É uma época
de muitos traumas. O adolescente já tem
as funções do adulto, pode ter um
filho, por exemplo. Mas não tem vivência,
é despreparado. Escrevi um livro sobre
a adolescência, “Vito Grandam”.
O adolescente é um estabanado, porque o
cérebro dele ainda acha que comanda os
braços de uma criança, mas os braços
já cresceram, têm o tamanho dos de
um adulto.
A história de Vito Grandam fala
de amor. O amor familiar, que você considera
fundamental na passagem para a idade adulta, pode
ajudar também a atravessar a adolescência
e a juventude?
Outro
problema do adolescente é que a mente dele
já está pronta, mas ainda tem pouca
informação. Só que ele acredita
já ter elementos suficientes para julgar
o mundo, principalmente o pai e a mãe.
Isso abre uma gama de possibilidades muito grande:
ele pode se tornar uma pessoa difícil ou
ter uma grande consciência do que ocorre
à sua volta. O Chico Buarque de Hollanda
foi criado numa casa com uma ordem moral importante
e se tornou um adulto brilhante. Mas na adolescência
“puxou” um carro. Os pais se desesperaram,
acharam que o filho tinha descambado para a criminalidade,
mas no fim descobriram que era só uma farra,
uma brincadeira entre amigos. São coisas
que acontecem na juventude.
Quer dizer então que o Menino Maluquinho,
mesmo tendo sido amado na infância e se
tornado o cara mais legal do mundo na idade adulta,
não teve garantias ao enfrentar a adolescência?
O
adolescente não tem saudade da infância.
A adolescência é um mergulho num
mar sem fundo. O cara emerge de lá um adulto
bom ou ruim. E o amor e a segurança que
ele recebeu na infância vão representar
um papel muito importante nessa transformação.
O Menino Maluquinho pode ter virado um adolescente
maravilhoso ou o adolescente mais chato do mundo.
A adolescência é uma travessia. O
que os pais têm de fazer é tentar
se lembrar da travessia deles.
Mas as travessias não são
sempre diferentes? Nem sempre os pais reconhecem
nos filhos as mudanças pelas quais eles
próprios passaram.
Muitos
pais ficam se perguntando o que eles fizeram para
que seus filhos se transformem em adolescentes
consumistas, por exemplo. Mas isso não
vem necessariamente da infância, pode ser
apenas uma reação do adolescente
às influências da sociedade. Outra
área sujeita a isso é a da sexualidade.
Outro dia vi um programa de televisão que
tratava como homossexualismo o fato de uma menina
gostar de outra. Não é nada disso!
É uma fase de descobertas, e meninas são
mais carinhosas. Também são mais
reflexivas, e por isso gostam de relatar suas
experiências em diários. Você
sabia que no Orkut (site de relacionamentos da
Internet) 80% dos perfis são de adolescentes
do sexo feminino?
Entre a adolescência propriamente
dita e a idade adulta, o Menino Maluquinho, como
todos os meninos e meninas que fazem o que você
chamou de travessia da adolescência, passou
pela juventude. Podemos imaginar também
como seria o Jovem Maluquinho?
Isso
dependeria muito da época. Hoje em dia,
os jovens que precisam ajudar na renda da família
encaram desde cedo o mercado de trabalho, mas
nas famílias de classe média a adolescência
pode ir até os 30 anos. Os filhos da classe
média demoram cada vez mais a sair da casa
dos pais, e o medo da violência faz com
que a casa ocupe mais espaço na vida das
pessoas. É cada vez mais comum, por exemplo,
namorar em casa. Grande parte desses filhos de
classe média vai acabar dando certo, mas
os pais e mães de garotos imaturos precisam
ter paciência. Não acho que se deva
deixar o filho sofrer para aprender.
O jovem Maluquinho já estaria sujeito
a esse processo?
Essa
história de filhos pendurados nos pais
foi inaugurada quando os filhos da minha geração
se tornaram pais. Quando eu saí de Caratinga,
aos 16 anos, para ganhar a vida, peguei um empréstimo
com meu pai, com avalista e tudo. Paguei cada
centavo depois que consegui um emprego. Hoje ninguém
imagina uma situação dessas. A música
“Eduardo e Mônica”, do Legião
Urbana, que foi composta alguns anos depois que
escrevi o Maluquinho, é um retrato perfeito
do nosso tempo. Eles acabam se casando e tendo
filhos, mas no começo... (vai se lembrando
da letra aos poucos) o Eduardo gostava de novela
e jogava futebol de botão com seu avô...
Finalmente, chegamos ao momento em que
o Menino Maluquinho se torna o cara mais legal
do mundo. O que é, para você, um
cara legal? E como seria o adulto Maluquinho?
Um
cara legal é aquele que não vai
precisar gastar metade do salário com análise
(risos). No Menino Maluquinho, eu não tinha
como desenhar esse cara. Tentei fazer um retrato
de um amigo meu que era muito legal, mas no desenho
ele ficou um cafajeste. A solução
foi pedir a Apoena, filha dele, então com
seis anos, que desenhasse essas páginas.
Assim, o livro termina com a visão infantil
de como é um cara legal. É o melhor
retrato que se poderia ter do Maluquinho hoje.
Fonte:
Onda
Jovem