Escolas
privadas de nível médio deixam de
atrair alunos
ANTÔNIO GOIS
da Folha de S.Paulo, no Rio
Na
contramão do que ocorre no ensino superior,
as escolas particulares de nível médio
não estão conseguindo atrair mais
alunos para suas salas.
Dados
do censo escolar do MEC e da Pnad (Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios), do IBGE, mostram
que o setor não está crescendo --em
alguns Estados, chega a perder alunos-- e cede
cada vez mais espaço para escolas públicas.
O
censo do MEC indica que, de 1991 a 2008, a proporção
de matrículas em escolas particulares no
antigo segundo grau caiu de 27% para 12%. A razão
principal para isso foi a expansão do setor
público, mas os dados revelam também
que o total de alunos vem oscilando entre 1,2
milhão e 900 mil, tendo atingido seu auge
em 1997 (1,267 milhão de estudantes).
Como
o censo escolar passou por algumas modificações
nesse período, não é possível
ter certeza sobre a magnitude da queda nas matrículas.
A Pnad, feita pelo IBGE com outra metodologia,
confirma, no entanto, que o setor não consegue
mais se expandir e perde espaço para as
públicas.
Pela
Pnad, o pico das matrículas de 2001 a 2008
(período que a pesquisa abrange) ocorreu
em 2004 (1,306 milhão). Em 2008, o número
de estudantes em escolas privadas de nível
médio foi de 1,214 milhão.
O
censo do MEC revela que os Estados que mais sentiram
a queda foram Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Para
os sindicatos de escolas particulares desses Estados,
há dois fatores principais a explicar essa
variação: a redução
da taxa de fecundidade nas famílias mais
ricas e o fato de a renda dos brasileiros com
maior poder aquisitivo não ter crescido
no mesmo ritmo verificado entre as famílias
mais pobres.
Em
São Paulo e Minas, os donos de escola dizem
também sentir esses efeitos, mas afirmam
que eles não foram tão intensos,
e a perspectiva é de crescimento ou estabilização.
"As
escolas particulares, que tinham facilidade para
captar seus alunos, hoje enfrentam problemas aqui
no Rio Grande do Sul. Além disso, alguns
alunos de classe média baixa ficam na rede
pública para se candidatar a uma vaga no
ProUni [programa de acesso ao ensino superior
restrito à rede pública] no futuro",
diz Oszino Toillier, presidente do sindicato de
escolas privadas gaúchas.
Violência
No
Rio, Victor Notrica, presidente do sindicato fluminense,
acrescenta a violência como fator que afugenta
a classe média para outros Estados. Para
ele, os brasileiros que aumentaram sua renda e
conseguiram ingressar na classe média ainda
não têm como padrão de consumo
o investimento em educação privada.
"Há
outros apelos, como a compra de eletrodomésticos
e automóveis. A educação
deixou de ser um dos primeiros itens no orçamento
das famílias, e isso se reflete nas matrículas
em escolas privadas", diz.
Ele
cita como efeito disso o fechamento de algumas
escolas no Rio (casos de Santa Úrsula,
Cunha Lima e Regina Coeli) e diz que alguns estabelecimentos
estão optando por unificar seus cursos
pré-vestibulares ao ensino médio
regular.
José
Augusto Mattos Lourenço, ex-presidente
do sindicato paulista e atual presidente da Federação
Nacional das Escolas Particulares, diz acreditar
que, em São Paulo, os efeitos da queda
da fecundidade entre os mais ricos devem ser compensados
pela recuperação da economia, e
as perspectivas são de crescimento.
Fonte:
Folha
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