Discriminação nas escolas e nos
livros prejudica desempenho de alunos negros
Ao
comparar a trajetória escolar de negros
e brancos, as disparidades não se concentram
apenas no acesso à universidade mas em
todas as etapas do ensino.
Os
negros são maioria no contingente de analfabetos
do país - somando 9 milhões do total
de 14 milhões – e estão mais
atrasados nos estudos do que o restante da população.
Para
o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros
da Universidade de Brasília (UnB), Nelson
Inocêncio, a diferença no rendimento
reflete uma escola e um sistema de ensino que
não acolhe a população negra.
“A
escola diz que o grupo do outro [dos brancos]
é a grande referência para a humanidade.
Foi o grupo do outro que construiu, ele representa
a civilização. E o meu grupo [negros]
não representa nada. Isso é colocado
de forma persistente nos livros, nas lições,
e o aluno vai obter reações muito
negativas em relação ao processo.
Ele se pergunta: na medida em que a escola não
me reconhece, que sentido faz eu estar na escola?”,
aponta.
Em
2007, cerca de 85,2% dos brancos na faixa de 15
a 17 anos de idade, estavam estudando, sendo que
58,7% freqüentavam o nível médio,
adequado a esse grupo etário. Já
entre os pretos e pardos dessa faixa etária,
79,8% freqüentavam a escola, mas apenas 39,4%
estavam na série correta.
A
mesma conclusão está no Relatório
Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Coordenado pelo professor Marcelo Paixão,
o estudo compara, entre outros pontos, o desempenho
de estudantes brancos e negros no Sistema de Avaliação
da Educação Básica (Saeb).
Em 2003, as notas em matemática e português
dos alunos brancos eram, em média, 7,5%
maiores do que a dos pretos e pardos.
“Isso
sugere que para as crianças e adolescente
pretos e pardos incidem obstáculos adicionais
ao desenvolvimento dos estudos, representados
pela discriminação racial presente
nos espaços escolares”, diz a pesquisa.
Segundo o pesquisador, esse preconceito se manifesta
de diferentes formas, desde atitude discriminatórias
dos professores e colegas até livros didáticos
que reforçam a invisibilidade dos negros,
passando pelo conteúdo "antropocêntrico
e pouco recepetivo à perspectiva da diversidade".
Luiana
Maia, de 19 anos, aluna do curso de História
da Universidade de Brasília (UnB) admitida
pelo sistema de cotas, diz que o tratamento dos
professores aos alunos negros é diferente
daquele dispensado aos brancos. “Ele já
tem aquela concepção, ainda que
inconsciente, do que é o negro. O cabelo
da menina negra, por exemplo, é visto de
forma diferente quando ela chega na escola com
ele solto, mais arrepiado. A professora já
pede para prender, fala para ter cuidado com piolho.
Com a menina branca não é assim”,
lembra.
Para
ela, o material didático também
não é adequado. “Os alunos
negros não se sentem representados pelos
próprios livros que usam. Ele se vê
apenas no tronco, no açoite. O aluno só
se vê na posição inferior,
chega em casa abatido, aquilo impacta no desempenho”,
compara.
Humberto
Borges, 18 anos, aluno do curso de Letras que
também ingressou na UnB pelo regime de
cotas, conta que quando era adolescente sempre
representava o Lobo Mau na peça de fim
de ano da escola.
“Até
que no último ano entrou um outro aluno
negro na minha turma e quando a gente foi montar
a peça o professor questionou: e agora,
quem vai ser o Lobo Mau? O Humberto ou o fulano?
Só então que eu fui perceber a sutileza”,
conta.
Para
o secretário de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade
do Ministério da Educação,
André Lázaro, a escola pública
reproduz formas de exclusão que afetam
diretamente a auto-estima do estudante e seu desempenho.
“O
desafio da escola hoje é formar todos,
seja qual for a condição de chegada.
A escola pública hoje, ainda que de maneira
inconsciente ou mecânica, produz formas
de exclusão muito dolorosas. Para aprender
você tem que confiar que você consegue
aprender”, analisa.
Fonte:
Agência Brasil
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