Defensores
de cotas afirmam que proibir exclusão do
negro não gera inclusão automática
Paula
Laboissière
Repórter da Agência Brasil
Brasília
- Participantes do último dia da audiência
pública no Supremo Tribunal Federal (STF)
sobre políticas afirmativas para a reserva
de vagas no ensino superior defenderam as chamadas
cotas raciais com o argumento de que proibir a
exclusão de negros não gera a inclusão
automática deles na sociedade.
Para
a representante da Fundação Cultural
Palmares, Flávia Piovesan, o combate à
discriminação requer ações
repressivas, mas deve envolver também medidas
capazes de promover avanços no processo
de igualdade. Segundo ela, ações
afirmativas devem ser vistas como medidas especiais
de proteção para o progresso de
determinados grupos sociais.
“São
alternativas legítimas para remediar um
passado discriminatório”, disse.
“A ética dos direitos humanos é
orientada pela afirmação da dignidade
e pela prevenção do sofrimento”,
completou. Flávia acredita que a adoção
das cotas está em “plena harmonia”
com os preceitos constitucionais ao valorizar
a diversidade e “aliviar a carga de um passado
discriminatório”.
O
representante da organização não
governamental (ONG) Educação e Cidadania
de Afrodescendentes e Carentes (Educafro), Fábio
Konder Comparato, lembrou que a Constituição
de 1988 tentou criar no Brasil um Estado social
que pretendia não apenas fazer leis, mas
dar um novo rumo ao país por meio da promoção
do bem para todos. O expositor admitiu que os
sistema de cotas não resolve o problema
da pobreza no país, mas destacou que o
STF deve julgar apenas a constitucionalidade da
medida afirmativa.
“Mais
de um século depois da abolição
da escravatura no país, ainda estamos a
discutir uma política que certamente não
é suficiente para dar a negros e pardos
uma posição de relativa igualdade
com os demais brasileiros, mas nada se diz sobre
a necessidade ética e jurídica de
se dar aos descendentes de escravos uma mínima
compensação”, concluiu.
De
acordo com a representante da ONG Ação
Educativa, Denise Carreira, as políticas
educacionais implementadas no Brasil não
têm sido suficientes para enfrentar as desigualdades
raciais na área. Ela defendeu que o “racismo
silenciado”, a falta de reconhecimento e
de estímulo e a baixa expectativa em relação
a crianças, jovens e adultos negros geram
“impactos terríveis” e que
o Estado brasileiro precisa avançar no
enfrentamento do racismo.
“Não
se trata de esperar a melhoria da escola pública
para se alcançar a democratização.
São necessárias estratégias
que agilizem o processo, a superação
de um modelo educacional predominantemente eurocêntrico”,
disse. “O argumento da pobreza é
insuficiente para explicar todas as nossas desigualdades
e o país não pode mais perder tempo
para enfrentar desafios”, acrescentou.
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