DEM
corresponsabiliza negros pela escravidão
LAURA CAPRIGLIONE
LUCAS FERRAZ
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Para
uma discussão que sempre convoca emoções
e discursos inflamados, como é a das cotas
raciais ou reserva de vagas nas universidades
públicas para negros, a audiência
pública que se iniciou ontem (3) no Supremo
Tribunal Federal transcorreu em calma na maior
parte do tempo. Até que um óóóóóóó
atravessou a sala. Quem falava, então,
era o senador Demóstenes Torres (DEM-GO),
que se esforçava para demonstrar a corresponsabilidade
de negros no sistema escravista vigente no Brasil
durante quatro séculos.
Disse
Demóstenes sobre o tráfico negreiro:
"Todos nós sabemos que a África
subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo,
para o mundo islâmico, para a Europa e para
a América. Lamentavelmente. Não
deveriam ter chegado aqui na condição
de escravos. Mas chegaram. (...) Até o
princípio do século 20, o escravo
era o principal item de exportação
da pauta econômica africana."
Sobre
a miscigenação: "Nós
temos uma história tão bonita de
miscigenação... [Fala-se que] as
negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que]
a miscigenação deu-se no Brasil
pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado.
Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra
que isso se deu de forma muito mais consensual."
As
referências à história "tão
bonita" da miscigenação brasileira,
ao negro traficante de mão de obra negra,
o democrata usou para argumentar contra as cotas
raciais, já adotadas em 68 instituições
de ensino superior em todo o país, estaduais
e federais. Desde 2003, cerca de 52 mil alunos
já se formaram tendo ingressado na faculdade
como cotistas.
O
partido de Demóstenes considera que as
cotas raciais são inconstitucionais porque,
ao reservar vagas para negros e afrodescendentes,
contrariariam o princípio da igualdade
dos candidatos no vestibular.
Na
condição de relator de dois processos
sobre o tema (também há um recurso
extraordinário interposto por um candidato
que se sentiu prejudicado pelo sistema de cotas
adotado pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF,
decidiu convocar a audiência pública,
que se estenderá até sexta-feira,
com intervenções pró e anticotas.
A
audiência pública é uma forma
de as partes interessadas levarem seus pontos
de vista ao STF. Segundo Lewandowski, o assunto
será votado ainda neste ano. Se considerar
que as cotas ferem preceito fundamental, acaba
essa modalidade de ingresso no sistema universitário.
Se considerar que são ok, a decisão
sobre adotar ou não uma política
de cotas continuará a ser dos conselhos
universitários.
No
primeiro dia, falou uma maioria de favoráveis
às cotas, em um placar de 10 a 3. Falaram
representantes de ministérios e de universidades
favoráveis às cotas, e os advogados
do DEM e do estudante gaúcho, além
de Demóstenes.
Fonte:
Folha
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